quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fernando “Pouco” Nobre

Foi na passada segunda-feira que Fernando Nobre foi a votos, na categoria de candidato a presidente da Assembleia da República (AR).
Até aqui nada de mais pois ele como cidadão nacional que é, recém-eleito deputado da nação e não tendo qualquer impedimento legal, pode perfeitamente ser candidato.
Tal como Pedro Passos Coelho lhe tinha prometido, aquando do convite endereçado para encabeçar a lista do PSD a Lisboa, Fernando Nobre foi proposto pelo novo Primeiro-Ministro para presidir aos destinos da AR nos próximos quatro anos
Passos Coelho prometeu, Passos Coelho cumpriu. É um homem de palavra.
Mas a eleição esteve muito longe de correr conforme Passos Coelho esperava (…ou talvez não).
Para percebermos um pouco melhor esta história e quem é Fernando Nobre na política, temos que remontar a algum tempo atrás.
Em Junho de 2009, aquando das eleições europeias em que o PSD saiu vitorioso, Fernando Nobre apareceu em Coimbra, num comício do BE, dando o seu apoio inequívoco a Miguel Portas e ao BE. Dizia ele então que “…estava ali a dar a cara para ser coerente consigo próprio, porque as ideias que defende o Bloco de Esquerda, são as ideias que eu tenho defendido, nos meus livros, nos meus editoriais, nas minhas conferências, nos meus protestos, nos meus gritos. É por isso que aceitei dar a cara para o Parlamento Europeu, pelo Bloco de Esquerda.”
Estas foram palavras proferidas em 2009. Bastaram somente quase dois anos para que toda a sua coerência e todos os valores que defendia, se alterassem radicalmente. Talvez algum psicólogo ou até mesmo algum psiquiatra possam dar explicações sobre este caso. Eu não tenho estudos para tal.
Aquando das eleições presidenciais, dizia Fernando Nobre para Francisco Lopes, durante o debate entre os dois candidatos que “…o senhor pertence a um sistema político perverso, caduco, ultrapassado, retórico, que levou o país exactamente ao impasse em que ele está. Foram os partidos políticos dos quais o senhor faz parte, que nos puseram na situação em que nós estamos”.
O que eu entendo ser estranho é o facto de ele agora fazer parte desse sistema político perverso, caduco, ultrapassado e retórico sem qualquer problema. Será que Fernando Nobre pensa que com a sua entrada no parlamento, o sistema político deixou, de um dia para o outro, de ter todas essas características que ele entende que tem?
Que ele tem um ego do tamanho do mundo, já se sabia mas que extravasava essas fronteiras, para mim é novidade. Senão vejamos o seguinte.
Dizia ele numa entrevista conduzida por Mário Crespo, em Março deste ano, que “…não é por acaso que os altos detentores de cargos políticos deste país, me tenham contactado porque querem todos saber o que é que eu vou fazer”. Lá está a questão do ego. Será que ele pensa que o mundo gira à sua volta? Hummmm…
Continuou a entrevista a dizer “…eu tenho tranquilizado a todos. Partidos políticos nem pensar, nunca…eu não aceitarei nenhum cargo partidário nem governativo. Está assente, determinado, não volto atrás”.
Ainda bem que há pessoas de palavra neste país.
Ora, depois desta pequena e esclarecedora resenha, eu começo a chegar à simples conclusão de que Passos Coelho teve uma jogada de génio. Mas que jogada!
Vejamos então a minha leitura de toda esta engrenagem:
·         Fernando Nobre teve cerca de 14% dos votos, nas presidenciais. Isso representa mais de 600 mil pessoas. Para a realidade portuguesa, em que somos 10 milhões de habitantes e com abstenções elevadas nas votações, tem um peso muito elevado, numa eleição.
·         Ser Primeiro-Ministro e “deixar andar à solta” uma pessoa que vale 600 mil votos, pode ser complicado para o governo pois pode-se tornar numa força opositora. Logo, há que ter esta pessoa sob controlo.
·         Assim, quando Passos Coelho convidou Fernando Nobre sabia de antemão, com toda a certeza, duas coisas: que Fernando Nobre aceitaria um cargo de prestígio (a suposta questão da cidadania), devido ao seu enorme ego e que não fosse governativo, pois Nobre não gosta de ser criticado e Passos Coelho sabia também que ele nunca seria eleito Presidente da Assembleia da República, pois não reunia consensos, nem dentro do próprio partido. Passos Coelho sabia também que a esquerda não votaria em Nobre, tal como o PS e o CDS/PP. Logo, se Fernando Nobre não fosse eleito Presidente da AR, ficaria no parlamento, como deputado.
·         Onde é que Fernando Nobre faria menos “estragos”? Precisamente no parlamento como deputado, que é a situação em que ele se encontra, presentemente. É que assim, tanto o governo como o PSD podem controlá-lo de uma forma bem mais consistente. E com a coerência que o caracteriza, pode muito bem, de um dia para o outro, começar a ser um problema descontrolado.
·         Além disso, dado a sua ligação à bancada do PSD, como independente, depois de andar a dizer que “…partidos, nem pensar…” e pelo facto de não ter sido eleito presidente, nas duas vezes que foi a votos, enfraqueceu muito o peso que tinha na sociedade civil assim como a sua posição no parlamento.
Penso que neste momento, Fernando Nobre representará mais um empecilho que uma mais-valia para a bancada do PSD, uma vez que não eram estas funções que ele queria. Mas no parlamento como deputado, o seu âmbito de actuação está controlado, se bem que a sua força tenha diminuído bastante. Já não representará qualquer perigo.
Fernando Nobre cometeu vários erros de “palmatória” que supostamente qualquer pessoa minimamente inteligente, não o faria.
·         Disse, depois das presidenciais, que nunca aceitaria pertencer a partidos políticos. Bastou um mês para que esse argumento caísse por terra.
·         Disse que era candidato a Presidente da Assembleia da República e que se não ganhasse, não aceitaria ser deputado. Foi criticado por todos. Podemos retirar daqui variadíssimas interpretações com um denominador comum: todas elas têm forte carga negativa para Fernando Nobre.
·         Depois veio emendar a situação dizendo que provavelmente aceitaria ser deputado. O mal já estava feito.
·         Não teve nem a capacidade nem a perspicácia necessária a alguém que quer ser político. De salientar que a sua primeira candidatura não seria aprovada (106 votos, necessitava de 116). Penso que mesmo antes da primeira eleição, deveria ter apresentado a Passos Coelho a intenção de não ser candidato. A sua própria imagem não ficaria certamente tão manchada e estou convencido que Passos Coelho aceitaria de imediato.
·         Sujeitou-se a uma segunda votação, apesar de ter perdido a primeira. Aí o arraso foi completo. É que ainda teve menos um voto (105) que na primeira vez.
Eu fico a pensar se por ventura, este senhor Fernando Nobre tem ganho as presidenciais? O que seria de Portugal?
Agora, devemos pensar em termos de futuro. Tenho curiosidade em saber como será a sua permanência no parlamento já que ele afirma que tenciona exercer as funções de deputado "enquanto entender que poderei ser útil ao país", seja lá o que isto for. Isso quererá dizer que irá votar favoravelmente tudo o que o PSD e governo submeterem à AR? Irá votar consoante a sua vontade? Alegará problemas de saúde para se retirar? Demitir-se-á? Como irá fazer?
Constataremos isso com o passar do tempo.
De qualquer forma, penso que Fernando Nobre foi vítima do seu próprio ego, da sua arrogância, da sua incoerência, da sua ambição desmedida.

Viva Portugal

João Pando

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