terça-feira, 8 de março de 2011

A Cidade do Medo!

Diz assim o dicionário da Língua Portuguesa, relativamente ao MEDO:
Sentimento de inquietação que surge com a ideia de um perigo real ou aparente”
Entre outras, esta é uma das definições aí encontradas.
Durante o período que Portugal atravessou de 48 anos de ditadura e que acabou há relativamente pouco tempo, tudo aquilo que fosse dito contra o regime e contra os seus protagonistas, colocava em sério risco os respectivos autores, podendo eles serem presos, barbaramente torturados, sem saberem se e quando voltariam a ser libertados.
Foram muitos os que passaram pelas famosas salas de tortura da PIDE/DGS. Pretendiam os homens próximos do regime que, além de impedir que esses continuassem com as suas práticas anti-regime, servissem também de exemplo para os restantes, dissuadindo-os das mesmas práticas.
Efectivamente havia muita gente com medo, neste país. Apesar das tentativas do poder político em dissuadir outros que parecessem mais afoitos, na verdade havia também gente feita de outra matéria, sem qualquer medo de intervir e esclarecida quanto ao que queriam para o seu país, para o seu futuro e para o futuro dos seus filhos.
Muitos estavam descontentes com o regime. Reuniam-se secretamente em casa de uns e de outros para falar de política e da vida melhor que queriam para todos e das acções a desenvolver. Eram os inconformados do regime, os indignados, os democratas. Por vezes eram apanhados. Não, não estou a falar daqueles como Jorge Sampaio que quando era preso por andar metido nas manifestações de estudantes, o seu pai, homem bem posicionado no Estado Novo, recebia um telefonema à noite e lá ia buscar o menino à esquadra da polícia. Como se sabe, “fartou-se de lutar e de sofrer com a ditadura”. Coitado. Estou a falar dos outros cujos pais eram simples cidadãos e que por vezes nem sabiam que os filhos passavam muitas horas de sofrimento nas casas da PIDE. Mesmo assim, esses portugueses cheios de esperança no país, enfrentavam uma máquina poderosa que lhes era perfeitamente adversa mas faziam-no por terem ideais, por quererem uma vida mais digna, livre e próspera.
E depois? Bem, depois veio a democracia, a liberdade, a esperança, a prosperidade,…Ou quase…
Houve uma enorme esperança no período pós 25 de Abril. Esperança em que a democracia nos proporcionasse uma vida bem melhor como tinham os ingleses, os alemães, os franceses, os noruegueses, os dinamarqueses.
Passaram quase 37 anos desde esse tempo em que os Homens deste país supostamente ganharam tudo isso. E o que temos hoje?
Continuamos a viver mal. Não me lembro de alguma vez neste país, no período pós 25 de Abril (o tal período da esperança), o poder político não falar em crise.
Que diabo, não teremos nós portugueses direito a níveis de vida como existe nesses países?

Hoje, limitamo-nos a viver, sem ideais, sem esperança, com uma democracia ditatorial, com liberdade condicionada e sem prosperidade. Mas a culpa é nossa.
·         Foi para este resultado que afinal portugueses corajosos, sem medo do regime, andaram a ser torturados nas salas de tortura?
·         É esta a vida de “tortura” que queremos viver?
·         Vamos deixar que este e outros governos se governem em lugar de nos proporcionar uma vida melhor, pois é para isso que lhes pagamos?
·         Vamos aceitar que os nossos direitos nos sejam retirados por estes governantes, em nome da crise, quando os seus direitos (muito mais dispendiosos que os nossos) continuam intactos?
Devíamos reflectir nestas questões.
Na minha perspectiva, antes do 25 de Abril, “a política servia-se dos políticos”. Hoje, considero que “os políticos servem-se da política”.
Mas pegando no título do artigo e depois desta introdução ao tema, verifico que o mesmo medo que existia antes do 25 de Abril, está novamente bem vincado na sociedade dita democrata. É vulgar assistir-se hoje a situações de perda de cargos, despedimento ou caso isso não seja possível, a situações de total desprezo pelas pessoas, bastando para tal pensarem de forma diferente e não estarem inscritas no partido. Nestes seis anos de socialismo socrático, esses casos sucedem-se. Por exemplo, o coordenador da DREC desde 1996 e que é militante socialista, que apoiava as escolas de Coimbra, foi demitido na semana passada por ter subscrito um abaixo-assinado contra o actual modelo de avaliação de professores. Neste caso, já nem o cartão do partido serviu.
O problema principal é que ninguém fala sobre estes assuntos com medo de que lhe aconteça o mesmo. Ou seja, o tal medo de outros tempos, reinstalou-se. Claro que a culpa é totalmente dos cidadãos pois temos permitido isso. A questão que se impõe parece-me ser a seguinte:
·         Por mais quanto tempo vamos permitir que isto aconteça? Mais 48 anos?
Efectivamente penso que é necessário aproximar as pessoas dos políticos mas como será isso possível quando eles apresentam atitudes completamente anti-democratas? O que têm eles feito de concreto para resolver essa situação? A meu ver, tem sido totalmente o inverso, cada vez se afastam mais, aliás como demonstram os actos eleitorais. E vamos permitir ser governados por gente desta natureza? É este o futuro que queremos dar aos nossos filhos? Será que são eles ou nós a geração Rasca, por nada termos feito para lhes darmos uma vida melhor?
Apesar de este medo estar espalhado por todo o território nacional, interessa-me particularmente um concelho: Torres Novas.
Torres Novas é um concelho onde há medo. Medo da classe política que governa esta pequena porção de Portugal. Medo dos responsáveis pelos organismos ligados à câmara e ao seu presidente António Rodrigues, por exemplo as escolas. Medo de enfrentar directamente esta classe de pseudo-políticos. Medo de os criticar, apesar de não se concordar com eles. Para tomarmos conhecimento desse medo de uma forma presencial, basta assistir às assembleias municipais e vermos o comportamento de alguns presidentes de junta ou do público que lá vai colocar questões (que habitualmente não é nenhum) ou vermos quem fala nos cafés das sucessivas viagens do presidente da câmara António Rodrigues ao estrangeiro, sem ninguém saber o que vai fazer e o que ganha Torres Novas com tal facto ou como os funcionários da câmara o vêem, entre outras.

Vejamos então, na edição do Jornal Torrejano de 18-2-2011, vinha uma notícia sobre a dívida da câmara de 250 mil euros a clubes e associações. E já para o final, a notícia referia que …os dirigentes, cansados e sem perspectiva de dias melhores, tornaram-se mais críticos e perderam o medo de divulgar a situação”. Cá está o assunto do medo.
Perderam o medo? Mas antes tinham medo? De quê? Não se deviam ter manifestado há mais tempo? Só agora a situação é aflitiva? Só reagem em situações extremas?
Isto significa que durante o período em que tiveram medo, não zelaram pelos interesses dos clubes e associações de que são dirigentes. São portanto maus dirigentes pois colocaram outros interesses à frente dos seus clubes/associações.
No parágrafo anterior dessa notícia diz que “…A dívida às Juntas de Freguesia do concelho, por atrasos nas transferências ao abrigo dos protocolos de cedência de competências (valetas e escolas) rondava no final do ano, os 344 mil euros.”
Ora, cá temos nós outro exemplo de maus dirigentes, neste caso políticos. A maior parte deles colocou sempre à frente dos seus interesses, não a população da freguesia mas sim a vassalagem ao “rei”. Pois se assim não for, acontece-lhes o mesmo que ao corajoso da Meia-Via.
Normalmente os conformados tomam a posição mais cómoda, ou seja, ficam calados e aguardam que os inconformados façam para depois poderem usufruir também.
Para terminar e completamente sem medo, não consigo compreender como é que é necessário uma canção, neste caso da banda Deolinda, para abrir mentes, despertar consciências, alertar para a situação de descontentamento generalizado, levar os jovens à acção. Isso devia-lhes ser natural já que estão a sofrer na pele o flagelo do desemprego, do trabalho precário, a Justiça condicionada, a Educação deseducada, os cortes nas bolsas de estudo, a falta de perspectivas para o futuro.
E dizem os políticos que o futuro do país está nos jovens…Só se estiverem a falar dos seus filhos.


João Pando

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