Foi com alguma curiosidade que comecei a ler a notícia do dia 10-11-2010, publicada no Jornal Público, cujo título era “Almeida Santos diz que medidas contra crise podem levar Governo a perder o poder, além de perder popularidade e votos”.
À medida que fui lendo a notícia, a simples curiosidade foi dando lugar à indignação e perplexidade e confesso que também a alguma revolta pois pensava eu que não era possível alguém de nacionalidade portuguesa e com responsabilidades políticas, proferir tais afirmações. Mas depois relembrei uma também sua recente afirmação e então reconsiderei. Afinal ele já nos habituou a afirmações desta natureza. Na verdade, quando pensamos que os políticos já não conseguem descer mais baixo, há sempre um ou outro que teima em nos surpreender pois conseguem-no fazer de forma despreocupada, natural e eficaz.
Mas vamos então aos factos para que compreendam esta minha intervenção.
No dia 29-09-2010 e a propósito da crise e da aprovação do Orçamento do Estado para 2011, vinham, no Jornal Público, as seguintes afirmações do presidente do PS, Almeida Santos: “Não é qualquer Governo que toma medidas como estas e está disponível para sofrer as consequências” e além disso “o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre”.
Ora, como “quem não se sente, não é filho de boa gente”, tive aí um primeiro rasgo de indignação. Então depois de o governo ter dado provas de total incompetência, pois nem as contas públicas parece ter controladas, ainda vem dizer que este governo tem muita coragem para sobrecarregar os portugueses com taxas e impostos, com redução de salários, com diminuição das prestações sociais, com mais desemprego e não só? Então não é isso que têm andado a fazer desde 2005, excepto em 2009 por ocasião do período eleitoral? E como chegámos nós a esta situação? Quem nos conduziu a isto? Na minha opinião, isto já não lhes custa pois já se tornou hábito e fazem-no com grande naturalidade. Mas custa-nos a nós.
Noto nestas afirmações que uma das grandes preocupações do presidente do partido que nos governa, nada tem a ver com os portugueses mas sim com a maior ou menor popularidade do partido e se terá mais ou menos votos nas próximas eleições. As pessoas não interessam.
Mas, “sofrermos as crises como o governo as sofre”, reconheço que esta é de mestre. Como sofrerá o governo, esta crise? Nesse caso, eu até concordo que “o povo”(*) sofra a crise tal como o governo sofre mas então que se atribua mensalmente a cada elemento do povo português, as mesmas condições salariais e mordomias de cada membro do governo. Fácil. É que assim também já concordo com o presidente do PS quando diz que os sacrifícios pedidos aos portugueses “não são incomportáveis”. Caso contrário, o que retiro das suas palavras é que, na sua opinião, os pobres dos portugueses (que enriquecem os governantes e seus amigos) podem ainda suportar mais sacrifícios pois “os burros de carga ainda aguentam mais peso”. Penso eu que é muito fácil falar de sacrifícios quando não somos nós que os sofremos.
Pergunto:
· Que sacrifícios fizeram os políticos até agora? Que sofreram eles com a crise?
· Existe algum termo de comparação entre os sacrifícios dos governantes e os sacrifícios das pessoas?
· Estão desempregados?
· Não conseguem pagar a prestação da casa, água, luz, gás?
· Não conseguem pagar os seus medicamentos?
· Vão ao Banco Alimentar?
· Vivem numa casa sem as mínimas condições?
· Os seus filhos deixaram a universidade por dificuldades económicas?
· Que mordomias lhes tiraram?
Segundo consta, até há um senhor neste país que parece ganhar rios de dinheiro, a quem o Estado (ou seja, todos nós) paga a segurança de todas as suas casas. A ser verdade, penso que é muito mau. É isto a democracia? Foi para isto que houve uma revolução? Só como curiosidade, nunca ouvi relatos sobre políticos pobres, neste país.
Foram e continuam a ser estes mestres que nos conduziram e conduzem ao que somos hoje. Cada vez mais um país de gente muito pobre e de alguns muito ricos, um país onde a Justiça é muito lenta e anda de braço dado com o poder, onde a Educação de qualidade é para os mais abastados, onde há uma Saúde para ricos e outra para pobres, onde a Segurança existe se houver dinheiro.
Na minha opinião, qualquer sociedade dita moderna assenta a sua estrutura de base em três grandes pilares: Saúde, Educação e Justiça. Ela só será desenvolvida se todos os seus cidadãos puderem usufruir/aceder pelo menos dos/aos benefícios que esses vectores possam fornecer.
Relativamente à notícia do dia 10-11-2010 do Jornal Público, que me deixou indignado, esta apresentava mais umas brilhantes afirmações deste grande político, estando ao nível das anteriores.
Diz ele que “Mesmo assim, eu acho que o Governo, sendo um Governo doloroso para os portugueses, é um bom Governo para o país”. Governo doloroso para quais portugueses? E diz-se este senhor, democrata. Sublinhei propositadamente parte da afirmação pela carga negativa que julgo ter. Ora, pergunto eu que tenho poucos estudos:
Um bom governo para os portugueses não deverá ser também um bom governo para o país e vice-versa?
É que o país Portugal faz-se com portugueses (caso não tenha percebido ainda).
Na minha opinião, um governo tem de ser bom para os dois (coisa que não acontece há uns anos). A afirmação demonstra, em primeiro lugar, o expoente máximo do “que se lixem as pessoas” assim como uma total ausência de sensibilidade política, uma vez que a política só existe porque existem pessoas. Em segundo lugar, uma total ausência de valores sociais (já que os socialistas se auto-denominam paladinos da justiça social mas cuja prática é bem diferente, para pior). E em terceiro lugar, penso que a situação descrita pelo presidente do PS só acontece porque o governo é francamente mau.
Mas a história, apesar de faltar pouco para o fim, não acaba aqui. Continuando, “Toda a gente diz que é um mau Orçamento. Eu tenho dito que é um bom Orçamento porque é o que o país precisa. Implica sofrimentos para as pessoas, mas não é por isso que ele é mau”.
Vamos lá ver então, se o Orçamento do Estado não é mau por implicar sofrimento para as pessoas, então é por quê?
Um Orçamento do Estado que implique sofrimento para as pessoas é bom?
Eu entendo que devo reforçar que este senhor é o presidente do partido socialista, aquele que nos governa. É o mesmo partido que se diz defensor da justiça social e outras tretas. De qualquer forma, penso que ele aqui vinca mais uma vez, o facto de as pessoas ficarem “para depois” e colocar o partido e o governo em primeiro lugar. Parece que é prática dos socialistas.
Para terminar, rematou que “infelizmente temos mesmo de pedir às pessoas que assumam sacrifícios, porque os portugueses têm vivido quase sempre acima das suas possibilidades”.
(Quero relembrar que nos últimos 15 anos, o seu partido socialista governou-nos 13 anos. Ora aí está o resultado das políticas socialistas. Será que ainda vão culpar os governos do PSD?)
Estará ele a falar de que portugueses?
Será que ele se quer referir à magnífica actuação que o seu partido tem tido no desenvolvimento do país ao longo dos últimos 15 anos, nomeadamente no que respeita à situação económica/financeira, em que o desemprego nunca foi tão elevado, em que os juros da dívida pública batem recordes, em que se cortam salários atingindo essencialmente os que ganham menos, em que aumentam impostos quando dizem que isso não acontecerá porque têm tudo controlado,…?
Será que ele pensa que os portugueses têm de ser sempre pobres e viver miseravelmente, pois é para lá que os socialistas nos estão a levar?
Não teremos nós portugueses, o direito legítimo a viver num país desenvolvido? E a viver como se vive num país desenvolvido?
Não teremos nós, portugueses, o direito a viver de forma desafogada? Ou estaremos condenados a viver permanentemente em crise? Com os socialistas já vimos que sim.
Faz-me lembrar aquela máxima “Acabemos com os ricos” quando na realidade deveria ser “Acabemos com os pobres”.
Se há heróis neste país, somos nós, portugueses, não este governo.
Apesar de termos muitos defeitos, somos nós que baixamos o défice e pagamos a nossa dívida externa. Não o governo. É que nos “sai do pêlo” todos os meses.
João Pando
(*) – Salientei “o povo” porque entendo que na boca dos políticos, esta palavra é dita com um sentido algo pejorativo, dando a entender que eles não vieram desse mesmo povo. Como tal prefiro “as pessoas”, “as populações”, “os cidadãos”.
Gostei muito de ler este teu comentário á dita notícia do jornal Publico, infelizmente nós Portugueses, somos muito de ficar calados, somos pouco reivindicativos, e como tal vamos
ResponderEliminarSofrendo na pele todas estas más decisões do nosso Governo.
continua assim,são precisas pessoas que digam as coisas cá para fora.....
Um abraço
Carlos Semião